O boom da cartomancia "fast food"
- Reduto Místico

- 11 de ago. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 27 de mar.
Como encontrar um cartomante profissional em meio ao caos digital.

Você já notou como assuntos místicos ganharam mais espaço nas mídias e internet nos últimos anos? Os oráculos estão em todo lugar: redes sociais, estampas de roupas, programas de TV e rádio, cinema, séries, novelas, games, propagandas...
Talvez seja um sinal de que as pessoas estão mais interessadas em espiritualidade. Pesquisei no Google Trends e comprovei que alguns termos, como “baralho cigano”, tiveram um aumento de mais de 200% desde 2005. Creio que a pandemia também intensificou esse movimento.



Por um lado, há algo de bom nessa popularização: a normalização da nossa profissão, mais gente estudando e ajudando outras pessoas por meio desses conhecimentos, combate ao preconceito, uma forma de promover o autoconhecimento etc.
Por outro, há o problema da generalização.
Pessoas que se dizem “cartomantes”, mas não têm conhecimento e experiência na área. Gente que começou a estudar semana passada e já almeja ganhar rios de dinheiro. Adolescentes tentando orientar adultos sobre dilemas complexos, como casamento, divórcio e carreira, temas sobre os quais ainda não têm qualquer vivência. Pessoas que associam cartas a serviços ilusórios, como trago seu amor de volta.
Isso é o que chamo de cartomancia fast food: conteúdos rápidos, rasos, feitos para agradar o algoritmo, que dão a ilusão de conhecimento, mas não ensinam de fato.
Vejo com frequência conteúdos e materiais que tratam a cartomancia como se fosse algo simplório, um conjuntinho quadradinho de palavrinhas fixas. Cavaleiro significa sim, Caixão significa não etc. Materiais que se dizem “definitivos", contendo significados de combinações. Mas não é assim que funciona. Se o símbolo fosse tão limitado dessa maneira, você nem precisaria comprar cartas. Bastaria escrever “sim” e “não” em pedaços de papel, recortar, misturar e sortear.
Nada disso é cartomancia.
Uma combinação de cartas não tem um único significado, porque infinitas são as possibilidades de combinações e infinitas são as possibilidades de perguntas que um ser humano pode fazer. E as respostas não caberiam num único lugar. Nem se você criasse um livro com milhares de páginas contendo as experiências dos melhores cartomantes do mundo...
Os símbolos não são engessados ou fórmulas prontas, como na matemática, em que 2 + 2 é 4 em qualquer lugar do mundo. Eles são subjetivos, sutis, adaptáveis, cheios de nuances e camadas interpretativas que dependem da pergunta e do contexto. Essa é a sutileza que muitos conteúdos na internet não falam, pois não estimulam o público a pensar cartomancia.
Ainda há o problema do ego. Todo dia é uma treta nova nas redes sociais. Certos cartomantes querem ditar regras e desmerecer o trabalho alheio. Não existe regra na cartomancia. Cada um usa da maneira que bem entender, a partir da abordagem que fizer mais sentido.
Eu penso que existe espaço para todo mundo. Existem diferentes abordagens, visões e experiências, e todas se complementam. Entretanto, o leigo ou iniciante nos estudos pode se sentir perdido diante da avalanche de conteúdos que circulam por aí.
Hoje, todo mundo quer tirar uma cartinha. Agora todo mundo é médium. Todo mundo é bruxo(a). Mas toda modinha passa. Até lá, como escolher um bom profissional para te atender ou ensinar?
Eu já fui consulente e vivi experiências boas e ruins. Por essa razão, me sinto na obrigação de compartilhar algumas dicas.
1. Pesquise o profissional
Quem é essa pessoa? Qual a sua trajetória? Qual a sua abordagem? Quais são seus valores pessoais? Como se comunica com o público? O conteúdo é autêntico ou repostado? A pessoa bota a cara em algum conteúdo ou se esconde por trás de imagens genéricas de IA?
Teste o atendimento dessa pessoa. Entre em contato e veja como responde. É rápida, demora dias ou te deixa no vácuo? É estúpida e grosseira? Ou empática e acolhedora? Isso diz muito sobre como será a consulta.
Vejo muitos cartomantes por aí com um linguagem tão fria, ríspida, violenta, cheia de desdém, que me pergunto como é que essas pessoas têm clientes e seguidores. Se a pessoa responde a uma caixinha de perguntas nos stories dessa maneira, não espere um atendimento diferente!
Você pode ser atendido com honestidade e objetividade sem precisar levar esporro de um estranho.
2. Não se encante por números
É natural que você associe quantidade de seguidores e fama ao sucesso e qualidade profissional. Mas nada disso é garantia de conhecimento. Existem inúmeros fatores por trás de uma conta viral, e nem todos têm a ver com expertise: sorte, timing, compra de seguidores, baixaria ou simplesmente entender como funciona o algoritmo.
Você só descobre a qualidade de um trabalho acompanhando a pessoa por um tempo. Portanto, evite se consultar com qualquer um no momento do desespero!
3. Cuidado com plataformas e aplicativos
Falo por experiência própria. A maioria dos sites do tipo “catálogo de esotéricos" e aplicativos de atendimento rápido é CILADA.
Deve existir gente boa nesse tipo de canal, mas ainda assim não recomendo.
Por quê? Porque você não sabe quase nada sobre quem está te atendendo nesses lugares. Muitos usam fotos falsas, nomes falsos (tipo Cigana Esmeralda) e até se valem da IA para fazer as interpretações (repletas de travessões e enviezadas para agradar o cliente).
Lugares desse tipo estimulam o pagamento por minuto e ganhos por volume de atendimento. Então, não espere qualidade nem profundidade.
Para você ter uma ideia, certa vez acessei um desses aplicativos, em que o usuário faz perguntas express (mais baratas) e, justamente por conta do valor menor, as respostas ficam públicas para quem quiser ler. Lembro que uma consulente perguntou qual opção de emprego deveria escolher, detalhando ambas as vagas. Sabe o que o cartomante respondeu? Para ela ter calma e avaliar muito bem, pois as duas opção eram boas. Só. Como essa resposta ajudou a vida dessa mulher? Jogou dinheiro fora, coitada! Um profissional de verdade jogaria cartas para analisar os dois caminhos separadamente, entregando informações reais para ajudá-la nessa decisão. Mostraria os potenciais, tendências e possíveis obstáculos de cada emprego, jamais se limitando a um conselho genérico e inútil desses.
Nota: a crítica não é contra IA, e sim contra o uso indiscriminado de IA, que tira a autenticidade dos conteúdos e apenas faz interpretações enviezadas, genéricas e abstratas.
4. Desconfie de preços extremos
Outro dia apareceu no meu feed um post de alguém oferecendo consulta a R$ 1,50. Isso mesmo que você leu: um real e cinquenta centavos. Mais barato do que um docinho de leite aqui perto de casa. Mais barato do que corrigir uma redação para o Enem nessas plataformas online fajutas.
Cada um é livre para colocar o preço que julgar melhor, conforme o tempo de experiência e a qualidade da entrega. MAS...penso que existem limites.
Sinceramente, não acho que uma consulta boa de verdade valha menos do que 10 a 20 reais. A não ser em 3 situações:
o cartomante está começando e quer cobrar apenas um valor simbólico para ganhar experiência (deixe isso claro para o seu cliente);
a consulta tem um valor promocional em épocas específicas ou “valor social", destinada a pessoas de baixa renda, por exemplo;
a consulta é do tipo rápida ou relâmpago, mas o profissional também oferece outras modalidades de atendimento mais profundo.
Ausência de um rosto
Entendo que muita gente prefira montar um canal ou perfil dark, por timidez, medo do preconceito ou por ser mais fácil. Gasta menos energia. Para alguns nichos, funciona, mas não é o caso de quem vende um serviço particular e íntimo, como uma leitura de cartas.
Como é que alguém vai confiar num profissional que não bota a cara a tapa?
Diariamente eu vejo um monte de contas novas surgindo, tudo com foto de perfil feita por IA. Não tem um rosto humano ali, nenhuma autenticidade nos conteúdos. Dá uma tristeza...
Não mostrar o rosto, não dar nome verdadeiro, usar pseudônimos batidos, não falar sobre a própria história, não dar informações de contato, tudo isso é típico de quem não quer ser rastreado quando algo der errado.
Comunicação genérica
A Cartomancia não se resume a mensagens superficiais, como “vai aparecer um homem loiro na sua vida”, “você será muito feliz no amor”, “esta semana será de grandes mudanças” etc. Aliás, não entendo quem posta esse tipo de coisa, pois não ajuda ninguém.
Em tempos de inteligência artificial, as pessoas querem otimizar o tempo. Isso é compreensível. Porém, usar a IA como apoio é uma coisa. Usar ela para tudo é outra.
Conteúdos rasos não são amostras confiáveis de expertise. Busque perfis e canais que têm conteúdo autêntico e pessoal, não conteúdos repostados e feitos por IA.
Promessas e exageros
Acredite: nenhum cartomante sério vai te fazer promessas como “trago seu amor de volta em sete dias”, “afasto rival”, “faço você enriquecer”, “faço amarração com 100% de garantia" etc. Isso não existe. Ninguém tem o poder de mudar o destino ou o livre arbítrio do outro. A manipulação energética não funciona dessa forma.
Animais em risco
Infelizmente, já encontrei anúncios de rituais que envolvem o sacrifício de animais para se conseguir tal coisa ou para se vingar de alguém. Funciona? É claro que não! Sem contar que não tem nada a ver com o estudo das cartas. NADA.
Você acha mesmo que sacrificar e torturar seres inocentes vai atrair coisas boas para sua vida?
Não existe justificativa espiritual para atos de crueldade. Mesmo que você esteja desesperado, não caia nesse tipo de promessa. Você só vai atrair negativos para sua vida.
Plágio
Inspiração, releitura e citação são diferentes de plágio. Inclusive, eu mesma já fui plagiada no Instagram há muitos anos. O algoritmo me sugeriu uma conta com nome parecido. Fui ver, por curiosidade, e descobri que a pessoa copiava ipsis litteris todas as minhas legendas e textos reflexivos.
Infelizmente, nem sempre é tão fácil identificar um conteúdo plagiado nas redes sociais, mas existem pistas.
Preste atenção:
ausência de legendas nas publicações, ou legendas que só têm link de venda;
ausência de pontos de contato, como e-mail, site, WhatsApp, CNPJ (se for loja), nome do responsável, localidade, foto;
excesso de erros gramaticais nos textos;
conta muito recente;
vídeos e fotos em baixa qualidade (geralmente porque a pessoa baixa vídeos de terceiros ou tira print).
Previsões que nunca acontecem
Se você sempre recebe a mesma previsão e ela nunca se concretiza, desconfie. Ainda mais quando você questiona e o cartomante responde assim: “é preciso ter paciência”. Isso é sinal de charlatanice.
Um bom oraculista sabe que o futuro pode mudar e vai te informar quando isso acontecer. Um bom oraculista sabe investigar por que uma previsão não aconteceu e o que deu errado. Um bom oraculista não vai dar certeza de coisas que não dependem só de você.
Conclusão
Assim como em todas as áreas, existem bons profissionais e maus profissionais. Saiba filtrar quem você segue e a quem você deposita o seu dinheiro.
Siga essas dicas e você vai encontrar um oraculista bom de verdade. Alguém que acolha, que não julgue e que realmente te ajude a encontrar uma luz no fim do túnel!





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